Uma noite estrelada
"Mais um bocado de pílulas para evitar o sentir,
não deixe essa sensação te puxar para dentro ou você só vai sumir.
A maioria das pessoas não entendem o viver,
elas só passam por mais um dia, é apenas mais um dia..."
Era mais uma noite quente do verão paulista, ela estava com seu vestido preto curto, que marcava a suas belas curvas na pele branca, salto prata de 15 cm caminhando até a estação de metrô, seu destino: Augusta.
Olhava o céu, enquanto diminuía o passo e pensava "São Paulo, que cidade bárbara, mas seria melhor se tivesse pelo menos uma noite estrelada...", mal se lembrava que a estrela da noite era ela. Vendendo não mais a mesma ilusão que o astro que olhava no espaço. Doava seu resplendor, realizava desejos, e de bônus trazia a satisfação imediata, a um preço fixo e justo. Ela já não se importava mais.
Parou e se olhou no reflexo de uma das vitrines, admirou seu 1,65 cm, sua pele branca, seus seios perfeitos, e seus olhos castanhos já inexpressivos. Mexeu em seus cabelos escuros e lisos, esta seria uma boa noite para ela, até que reparou em mais um reflexo.
Ele a olhava com um sorriso, "tenho tanta saudades de você", era o que ele queria dizer.
Se aproximou, a beijou e pegou na sua mão e disse:
-Vamos dar uma volta?
Ela sorriu de volta, vibrante e sem preocupações:
- Sim.
Ele a colocou no carro, e partiram. Foram a um bar sushi-karaokê, seu favorito. Comeram, beberam, se divertiram, uma noite completamente diferente das outras, sem pensar em seus clientes ou nas contas que deveria pagar. Sem lembrar de seus medicamentos, seus problemas domésticos, pois afinal qual delas não o tinha? De todas era só mais uma, mas não esta noite. Esta noite, seu rosto luzia. Seu sorriso irradiava, e não era apenas seu corpo que importava, mas sim o quão bem ela se sentia. "Deve ser assim que uma estrela se sente quando acende".
Ele pagou a conta, e resolveram caminhar mais um pouco. Ela tirou seus saltos, e os segurou em uma mão, enquanto a outra ainda segurava a dele. Ele a beijou novamente, e a puxou mais para perto. Suas mãos começaram a caminhar pelos corpos quentes. Voltaram ao carro e então para a casa dele.
A noite fora intensa, não sabia se fora a bebida ou apenas a emoção de estar ali. Ele a tocava como mais ninguém, seu corpo tremia, seu peito arfava, e ela sentia como se não pudesse aguentar. O beijou, e adormeceu em seus braços, até o sol raiar.
Quando acordou, ele estava trocado, ao seu lado na cama:
- Você acordou, que bom. - Ele sorriu e a beijou. - Eu preciso sair agora, mas você pode ficar, tomar um banho, café se quiser. Tem um pouco de dinheiro no balcão, caso você queira pegar um táxi. Deixe as chaves no vaso perto da janela.
- Você ia sair, sem me avisar? - Ela se levantou suavemente, se cobrindo com o lençol, tentando se encaixar na situação.
- Eu ia te escrever um bilhete, mas fico feliz que tenha acordado, pude ver seu sorriso de manhã, mas agora realmente preciso ir. Sinto muito.
Ele colocou seu paletó e saiu pela porta, e a deixou na cama, sem dizer se a veria novamente. Ela se levantou, tomou um banho, e colocou de volta seu vestido preto e salto 15. Em cima da mesa ele havia deixado R$ 370,00, enrolados num papel escrito "com um extra pela noite". Abriu o portão, colocou as chaves no vaso, olhou para o céu novamente, respirou fundo e pôs-se a caminhar.
Mais uma vez ela havia brilhado pela noite, sem que ninguém notasse...


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