Churrasco em Família

Bem, volta e meia estou aqui no Blog. Às vezes me distancio, não pela falta de vontade, mas pelo desânimo do dia a dia, mas hoje vim aqui compartilhar uma situação a qual me deixou emputecida. 

Eis o cenário: Em casa, churrasco de família, NINGUÉM havia bebido. Discussões sobre todos os tópicos, eu apenas ouvia. Até que chegaram em um assunto que foi bem compartilhado na mídia: a garota estuprada por pelo menos 30 homens. 

Os comentários maldosos começaram "ah mas ela estava na boca, então deveria entender que tem riscos", "ela também fumava, era drogadinha", "ela foi porque quis, tinha o namorado dela lá", em meio a todos estes comentários difíceis de lidar, eu com toda a leveza soltei "mas nada disso justifica o estupro". Pronto! Logo todos me olharam como uma estranha no ninho. Eu não costumo dar minha opinião em família, mesmo porque são conservadores e pregam coisas como essa, as quais eu não concordo.

Quem me conhece sabe que sou alguém que defende a livre escolha da pessoa, sem que acarrete em violência, mesmo por que eu já sofri (e me utilizei) muito dessa violência em casa. Tanto a psicológica quanto a física. 
Não, eu nunca fui uma jovem empoderada. Não, eu não sabia me defender sem partir para a violência e não, ninguém me ensinou que eu tinha valor algum.
Dentre varias situações com minha família, fui retratada como culpada. 
Culpada pois sofri um assalto (já sofri mais de um).
Culpada pois meu irmão me bateu.
Culpada pelas discussões. Culpada por um pensamento diferente. 

Eu falei que não acreditava que era certo justificar o fato acontecido por que a garota era daquele jeito. Os comentários se tornaram para mim na hora. Me disseram que eu apenas queria polemizar. Disseram que eu queria contrariar, disseram que a menina saiu de lá andando, então não tinha sido estupro. Argumentaram que ela poderia ter se prevenido e ao invés de ir ao beco com o namoradinho podia ter dito não.

Eu logo pensei "e quando dizer não, não é o suficiente?", pensei em todas as garotas que já disseram não e o estupro aconteceu da mesma maneira. Pensei na quantidade de pessoas que não encaram 30 (ou mais) homens com a mesma garota e não consideram isso um estupro, pensei na quantidade de vitimas que existem e existiram e tiveram medo de contar a sua historia exatamente por ter uma família conservadora que ao invés de apoio oferecia a culpa, assim como a minha me oferece. 

Os comentários não pararam por ai, justificaram que o mundo é violento, envolveram outras questões, falaram sobre o garoto de 7 anos que havia atirado na policia (será mesmo que foi assim?) e que se alguém atirar contra você, você deve atirar de volta.

Disse que eu não acreditava em combate a violência com mais violência. Quando se tem mais do mesmo, tudo que pode ser gerado é apenas o caos. Mais uma vez rechaçaram a querer corrigir meu "erro" e me disseram que eu só queria contrariar, como se eu devesse concordar com um pensamento padrão. Como se tudo que eu dissesse deveria ser desconsiderado, afinal, aquela não era minha real opinião, eu queria apenas "discutir" e até aquele momento, eu não havia mudado meu tom de voz, havia sido grosseira ou dito mais do que duas frases.

Eu disse que não comentaria mais, pois minha opinião não estava sendo considerada como real. Os ânimos do meu pai e da minha irmã se agitaram pela minha frase, minha mãe tentava controlar tudo com uma voz baixa. Sai dali.

Me lembrei da quantidade de  vezes que isso ocorreu. Quantas vezes fui compelida a sair de algum lugar por não concordar com o pensamento comum. Quantas vezes fui silenciada? Quantas vezes ignorada por acreditar em algo diferente? Quantas vezes menosprezada e hostilizada por não ser igual? E quantas vezes sofri violência por isso... 

Pensei na quantidade de mulheres e garotas que são diariamente anuladas por esse determinado pensamento e como somos esmagados pelo senso comum e como isso é tão forte e tão presente no nosso dia a dia, que o mundo não identifica esse tipo de comportamento como errado. Sim, isso é errado. Isso é intolerância e essa é a fonte de todos os preconceitos, é o inicio. O estopim dos casos de violência.

As pessoas não são educadas a ouvir opiniões diferentes e respeita-las.  Não são ensinadas a conviver com o diferente e que o diferente pode ser bom ou pelo menos te agregar conhecimento. A violência não é a resposta. Fogo não se combate com fogo.

Enquanto vivermos num mundo, onde acreditam que "bateu de frente é só tiro, porrada e bomba" e que tolerância é bobagem, que entendimento é birra e que respeito "é só para quem tem", as pessoas irão apenas se afundar em seus próprios conceitos. 











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