A Princesa de Eutin
A rainha gritava de dor, enquanto a parteira dizia para ela empurrar. A situação era complicada, o bebê tinha dificuldades em sair do útero.
O rei fora do quarto, dizia para fazerem de tudo, e que não importava o que fosse, mas lhe disseram que sua esposa e o bebê não iriam sobreviver.
Até que uma antiga curandeira foi chamada para que salvasse as vidas mais preciosas do reino.
Até que uma antiga curandeira foi chamada para que salvasse as vidas mais preciosas do reino.
"O que eu ganharei em troca?" disse ela com sua voz que arranhava as paredes mais finas do castelo.
"Terás aquilo que desejar, velha bruxa. Apenas salve as vidas de minha esposa e filho." foi a resposta do rei desesperado.
A velha sorriu e disse "Eu não desejo nada por ora, minha alteza. Cobrarei aquilo que me é devido na hora certa, e quando esta hora chegar, não tente impedir, meu Rei, pois o destino não pode ser desfeito".
Com aquela frase, ela adentrou os aposentos reais, retirando todas as outras mulheres do local.
Tempos depois... Um choro. A voz feliz da rainha, o rei entra no quarto para ver sua linda esposa com uma bela criança em seus braços. Com pequenos cabelos louros, uma pele lisa, sedosa e branca, olhos mais azuis que o próprio céu, e uma pequena marca, embaixo do pescoço.
Pela primeira vez, ele segurava a princesa de Eutin. A velha curandeira, subitamente desapareceu e o rei não encontrou motivos para se preocupar, enquanto se deleitava na beleza da própria filha.
Os dias se passaram calmamente enquanto a linda princesa crescia. Ela era gentil, educada e bela. A princesa aprendeu a se comportar, a andar de cavalo, a dançar e também se tornou uma exímia arqueira. Ela era a princesa mais querida dentre os reinos próximos, todos os grandes reis, aspiravam a idéia de unir seus filhos em casamento e formar uma aliança pacifica e cheia de riquezas com o reino de Eutin.
O rei amava sua pequena princesa, e todos se curvavam perante ela. Por muito tempo o rei não lembrou de sua promessa...
Certa noite enquanto a família real ceava, repentinamente as cores do céu desbotaram, ficaram escuras e nuvens encobriram o castelo e enquanto o rei acolherava sua sopa, a imagem da velha curandeira surgiu em sua frente.
A palidez em seu rosto era visível e todos se prontificaram, enquanto o rosto do rei mudava de cor.
"O rei está envenenado!Ajudem o rei! Querem matá-lo!" era o que seus servos gritavam, enquanto assistiam a cena.
A voz da bruxa ressoava na mente do rei "a hora está chegando. O destino não mudará!". O rei se levantou imediatamente e gritou "PAREM JÁ COM ESTE ALARDE!". Todos ficaram em silêncio e ele partiu para seus aposentos.
A rainha se levantou e ordenou que todos retornassem aos seus afazeres, enquanto calmamente levava sua bela filha de volta ao seu quarto e indo de encontro ao rei. Ela o beijou e segurou, esperando que suas preocupações sumissem.
A cada ano que passava o rei se tornava mais inquieto, a curandeira já não saia de seus pensamentos. Então, ele pediu a seus cavaleiros mais fiéis que iniciassem uma busca para encontrar a velha.
***
As estações mudaram e a princesa crescia., até chegar a idade de se casar. Foi quando começaram as festas e pretendentes de todos os reinos, príncipes e reis pediam a mão da princesa em casamento.
As festas duraram dias e noites, nada agradava a princesa e ao rei. Até o dia em que um belo cavaleiro se apresentou diante da princesa. O rei não compreendeu, o que alguém que não fazia parte de uma família real fazia ali e como ousava pedir a mão da princesa.
"Meu rei, não desejo lhe causar uma ofensa, porém no reino em que nasci o rei sofreu um infortúnio e não pode ter filhos, ele já está velho e doente, mas eu sou seu mais fiel cavaleiro, estive sempre ao seu lado e o servi lealmente. Todos falam da incrível beleza da princesa de Eutin, e o rei me pediu que o representasse neste pedido, como sucessor de seu trono. Ele gostaria de unir nossos reinos". E o cavaleiro entregou uma carta com os selos e assinaturas reais.
Imediatamente o rei enxergou as oportunidades daquela união, e de como sua princesa sempre estaria protegida, e então o acordo se fez.
O reaparecimento da velha curandeira
Os cavaleiros do rei gritaram "Abram os portões!", logo as correias eram puxadas, o portão subia e eles estavam dentro do castelo. Aires, um de seus mais fiéis cavaleiros se dirigiu ao salão principal, anunciando sua chegada e dizendo ao rei que era portador de boas notícias.
"Diga-me fiel servo, tu serás recompensado por tua bravura e inteligência", o Rei anunciou com sua voz soberana.
"Encontramo-la", foi a única palavra dita pelo escudeiro.
O rei se fez espantado, em seu rosto passaram diversas emoções em apenas um minuto, e tudo que conseguiu dizer foi "Tragam-na".
Com seus braços e pernas acorrentados, cabelos grisalhos e desgranhados, seu rosto imundo e pés descalços, a velha adentrou o salão principal, de cabeça baixa.
O rei se enfureceu ao ver a imagem da curandeira. "Aonde se escondeu por todo este tempo? Por que sumiu após o parto de minha filha? Não teve coragem de encarar seu destino?"
Ela tossiu e disse "Destino meu Rei? Por que eu não haveria de aceitar meu destino? Eu salvei a vida de sua filha e esposa, tudo que deveria receber são flores ao meus pés, porém o senhor manda que cavaleiros brutos me prendam e me deixem passar fome".
"Flores aos seus pés? Quem tu pensas que é? Não te esqueça que não passa de uma velha bruxa, que não vale nada. Merece a corrente e a própria morte por tuas práticas!" a voz austera do rei se propagou pelo salão.
"Desejas meu rei, que eu retire meu feito ou que lhe peça o favor que me deve agora?" a velha disse sem ainda olhar aos olhos de ninguém.
O rei empalideceu e mais uma vez se enfureceu com a resposta da bruxa " Lhe devo? Por que eu deveria uma bruxa? Mas, como piedoso rei, não lhe sentenciarei a forca ou a queimarei na na fogueira. Tu serás sentenciada a viver eternamente trancada nas masmorras de meu castelo, até o dia de sua morte!"
"AHAHAHAHAHAHAHA!" A bruxa riu e olhou fixamente para o rei "Acha que podes driblar o destino? Acha que pode ter aquilo que não lhe pertence? Ainda não compreendeu meu Rei? Tu tens uma vida em troca de outra, e no seu caso foram duas vidas que lhe dei! Me trancafie na sua masmorra, viverei muito mais do que imagina, com uma das vidas que me deve!"
A palidez do rei sumiu e seu rosto enrubesceu. "Levem-na daqui, agora!"
Os cavaleiros puxaram as correntes, fazendo com que a velha tropeçasse e caísse antes de sair do salão, enquanto o rei se afundava em seu trono, com seus medos assombrando seus pensamentos.
***
Não muito tempo após a prisão da bruxa, a rainha adoeceu. Sua pele se tornou pálida, ela sofria com desmaios, sentia falta de ar e estava sempre cansada. Ela já não comia e estava sempre apática. A cada dia que passava a rainha ficava cada vez mais fraca e nada parecia fazê-la melhorar.
O rei lembrava das palavras da curandeira, e não suportava a ideia de que tinha causado aquilo a sua querida rainha. Ele foi ficando triste, fechado e duro, as coisas já não eram as mesmas no reino.
Devido a doença da mãe, a princesa não podia comparecer aos encontros com seu cavaleiro, adiando o casamento entre eles.
Pouco tempo depois, a rainha faleceu.
O rei decidiu então, cuidar de sua princesa para que ela nunca conhecesse o rancor da curandeira que agora morava nas masmorras do castelo. E o seu primeiro passo, foi se atentar ao seu noivado. Se a princesa não estivesse perto, se ela casasse o quanto antes, ela não sofreria as consequencias da sua escolha.
***
A princesa não se sentia confortável indo de encontro ao cavaleiro logo após a morte de sua mãe. Ela gostaria de ficar sozinha com seus próprios pensamentos, mas ela não podia negar os pedidos do pai naquele momento, portanto naquela manhã, ela escolheu seu mais belo vestido de cor cinza com detalhes prateados em seu corpete e na manga e em sua barra detalhes dourados.
Ela foi até os estábulos e acariciou um de seus mais belos cavalos, ela encostou em seu ouvido e lhe sussurrou "Hoje me encontrarei com o cavaleiro, que dizem ser o mais forte e valente daquele reino. Certamente sua beleza é incomparável, mas será que ele é tão inteligente quanto você?".
Ela sorriu para o cavalo, e então saiu de seu castelo, ao encontro de seu noivo.
Os encontros reais
Naquela manhã, ambos caminhavam pelo bosque. Esta era uma cena que se repetiria inúmeras vezes. Ao contrário do que a princesa pensava, o cavaleiro, não era apenas um homem duro e interessado em batalhas, ele tinha grande sabedoria, que vinha de suas origens e lutas, das pessoas que ele havia salvo e das pessoas que o salvaram. Ele gostava dos animais e lhe confidenciou que lutas não eram de seu agrado. Ele preferia observar as inúmeras coisas que aconteciam ao redor e viajar para lugares distantes. Em suas viagens, ele descobriu escritos antigos, jamais vistos pelas pessoas do reino, ele encontrou poetas laureates, conquistadores, novas formas de religião, e ele abraçava este conhecimento e visava-o com respeito e admiração pela evolução de nosso mundo.
O cavaleiro só erguia sua espada diante de ameaças e não matava se não fosse necessário. A cada encontro que tinham e a cada história nova que a princesa escutava, ela se fascinava com o cavaleiro e o cavaleiro também se encantou com ela. Com suas diversas caças e cavalgadas. Com sua pele sedosa e olhos maravilhosos, ele a admirava pela força que ela tinha após a morte de sua mãe, e com sua postura sempre correta. Ela se preocupava com os outros, e tratava a todos com carinho.
Os encontros reais eram sempre banhados de alegria e ternura.
Até aquela manhã no bosque, em que o cavalo da princesa correu a frente e ela o seguiu, saindo assim da rota usual que eles faziam durante as manhãs. O cavalo parou em um lago próximo e a princesa se sentiu aliviada, indo de encontro ao seu querido animal. Ela o acariciou e logo em seguida procurou por seu amado cavaleiro, que observava algo entre as moitas com muita atenção. Ela o chamou, acreditando que ele poderia possivelmente ter visto um ladrão ao algo do gênero, ele retornou ao seu lado dizendo que foi apenas um animal no rio, e pediu que ambos retornassem ao reino.
Ela aceitou a proposta, mas notou que os olhos do cavaleiro estavam distantes. Enquanto ia ao estábulo, em seu castelo, ela começou a pensar no que poderia ter acontecido naquele momento em que ela deixou o lado de seu cavaleiro.
" Apenas um animal no lago" Ela se repetiu "Foi o que ele disse, mas por que ficar tão distante após ver um animal no lago?"
Seu cavalo relinchou, como quem respondia a pergunta da princesa.
"Você tem razão Arkadius, eu não deveria me preocupar com isto, logo estaremos casados e qualquer coisa que haja entre a gente, poderá ser compartilhado, pois seremos rei e rainha, governantes da união dos reinos de Naudars e Eutin." ela acariciou o cavalo mais uma vez, e deixou o estábulo.
***
O tempo se passara e o cavaleiro e a princesa se encontravam cada vez menos. E quando seus encontros se ocorriam, eram próximos ao castelo de Eutin e não mais no bosque entre os reinos, como antes.
E logo rumores começaram pela cidade, dizendo que o cavaleiro tinha uma outra mulher que ele pretendia casar. Rumores que deixaram a princesa aflita e entristecida.
Ela não sabia se aqueles rumores eram reais, portanto contou ao seu pai. Seu pai, com sua austeridade disse que a filha precisava convocar o cavaleiro.
E assim ela o fez. Naquela manhã, ela se preparou para ter uma audiência com seu amado cavaleiro, sem temer a resposta. Quando ele entrou no salão principal, ela como boa princesa, segurou os sentimentos e pôs-se a falar " Cavaleiro do reino de Naudars, sabes por que foi convocado esta manhã?"
"Acredito que rumores tenham se espalhado pela cidade, e para não questionar minha integridade como cavaleiro, tenho o dever de dizer a verdade." foi a resposta do cavaleiro.
"Então como se defende das acusações que lhe são feitas?" ela lhe falou com a mesma tonalidade de seu pai.
"O que é dito pelas ruas, é verdadeiro. Não posso lhe negar a verdade princesa, passamos muito tempo juntos, porém não tenho a intenção de me casar com você." Ele dizia se curvando diante a presença da garota.
Por um momento, a princesa não soube que reação ter. Ela era a princesa mais linda e forte destes reinos e como este mero cavaleiro não queria se casar com ela? Ela era exímia e sabia muitas coisas, mas ainda não agradava a presença dele? Ela não conseguiu pensar em muito mais coisas, se não lhe perguntar se o cavaleiro não intencionava ter uma posição melhor no reino.
Ele a respondeu de forma simples insinuando que aquilo poderia trazer uma riqueza imensa, mas mesmo assim ele disse que seria fiel aquilo que seu coração lhe dizia e que aquele noivado não fazia mais sentido, ele não gostaria de magoar a princesa, mas não poderia deixar seus verdadeiros sentimentos de lado e enganá-la, portanto ele agiria como um cavaleiro e deixaria seu caminho.
Ele se virou sem ao menos ouvir as palavras da princesa. Ela estava furiosa, quando retornou ao seu quarto, quis jogar tudo pela janela, mas além de tudo, ela estava magoada e não era querida por quem ela mais amava.
Ela não podia encontrar ou ver ninguém, ela só queria... Mais um passeio no bosque.
Ele se virou sem ao menos ouvir as palavras da princesa. Ela estava furiosa, quando retornou ao seu quarto, quis jogar tudo pela janela, mas além de tudo, ela estava magoada e não era querida por quem ela mais amava.
Ela não podia encontrar ou ver ninguém, ela só queria... Mais um passeio no bosque.
O rancor dos principados
Alguns dias se passaram, até que a princesa pudesse retomar seus afazeres normais. Ela já não era mais tão bem vista por todos e estava sempre com olhares tristes.
Seu pai decidiu lhe falar, ele gostaria que ela se casasse com um conde que ainda estaria disposto a se casar com ela.
A princesa não aguentava pensar em casamento, ela não aguentava o conde que a lembrava mais um porco, do que um homem.
E aquele conde, também não aguentava a cara de desgosto que ela fazia enquanto ele falava sobre as terras que ele possuía e tudo que ele teria após o casamento deles.
E foi neste momento em que o conde decidiu que ele não deveria aguentar mais aqueles olhares.
E a princesa sentiu raiva de si mesma e raiva de seu amado cavaleiro, pois ele havia a deixado para este terrível destino.
Foi quando a princesa decidiu sumir daquele castelo, e ela correu por todos os andares, ela passou pelos campos, pelos estábulos, e chegou nas masmorras, aonde ela ouviu um choro.
Ela se aproximava do som, até que encontrou uma pobre velha. A princesa nunca viu alguém naquelas masmorras. A velha era suja e estava acorrentada em um dos cantos daquela prisão.
"Porque choras minha senhora?" A princesa pensou na miséria que esta senhora poderia ter vivido e o que poderia ter feito para estar presa no castelo.
"Ah, minha criança... Sabes que te vi nascer? Sabes que quem te ajudou a nascer fui eu? Tudo que fiz foi ajudar o querido Rei a salvar a vida de sua querida esposa e filha, mas como sou pobre ele não queria que ninguém soubesse disso. O Rei me trancafiou nesta masmorra, me impediu de viver a vida e também de ver meu filho... Meu filho que hoje, deve ter a sua idade..." A velha curandeira fungava, e assoava seu nariz em suas roupas maltrapilhas.
"Não pode ser... Meu pai jamais faria uma coisa dessas." A princesa disse indignada com as afirmações da senhora.
"Não pode ser? Depois do seu nascimento eu fugi, eu não pedi nada em troca, disse que não queria recompensas, e mesmo assim, o Rei me caçou, me privando da vida. Se não acreditas em mim, pode perguntar ao seu pai! Isso se quiser lhe contar também que veio as masmorras ou eu posso lhe contar, pois o Rei se assegura toda noite de que eu estou aqui... Tudo que eu realmente queria era ver meu filho mais uma vez. Se eu pudesse ver meu filho, eu viveria aqui em paz." A velha se sentou com os joelhos entre os braços, como se fosse uma criança abandonada.
A princesa pensou um pouco naquilo que a velha dizia. Mesmo que fosse verdade, ela não poderia dizer ao pai que tinha ido as masmorras, ela seria severamente castigada, pois sempre soube que aquele não era um lugar para uma princesa. Foi o que seu pai lhe disse quando era menor.
"Quem é seu filho? O que ele faz? Eu o trarei aqui, mas deve me prometer que não contará nada ao meu pai." Foram as palavras da Princesa.
Enquanto a velha lhe dizia aonde encontrar seu filho, a princesa prestava muita atenção e guardava em sua memória, tudo aquilo que a velha havia dito. E então a velha lhe entregou um colar e disse que seu filho saberia da verdade quando o visse.
"Na manhã seguinte estarei aqui, junto ao seu filho, cumpra com sua promessa, que cumprirei a minha."
A princesa se virou e saiu das masmorras, sem que ninguém a visse.
A ceia chegou e seu pai não lhe disse nada sobre sua escapada. O que ela acreditou ser um sinal para o cumprimento da promessa da velha, então após a ceia, chamou um dos cavaleiros que cuidava dela desde criança.Pediu que lhe ajudasse a sair sem que seu pai percebesse, pois ela tinha uma promessa a cumprir.
O cavaleiro não quis realizar o pedido, com medo de que o Rei descobrisse, mas a princesa insistiu, dizendo que ela iria da mesma maneira, com ou sem a proteção dele. Sem opção, o bravo cavaleiro resolveu ajudá-la.
***
A manhã seguinte foi complicada. A princesa vestiu roupas de camponesa, quais o cavaleiro de seu pai havia trazido, ela se vestiu e colocou uma capa, para que ninguém visse seu rosto. Saiu pela cozinha, onde quase ninguém notou sua presença. Lá fora seu cavalo estava selado e pronto para a cavalgada. Sair dos campos do castelo foi o mais complicado, mas o cavaleiro havia lhe dito sobre uma passagem secreta que não envolvia a abertura dos grandes portões.
E então a princesa se foi. Para longe de seu castelo, de seu pai, e de tudo, esperando encontrar aquilo que procurava.
Após uma longa cavalgada, a princesa encontrou algo que parecia uma carroça, mas estava velha e caindo aos pedaços. Ela diminuiu o passo do cavalo, que começou a relinchar quanto mais perto ela chegava. Ela desceu de seu lombo e pediu a Arkadius que se acalmasse, pois estava tudo bem, e o amarrou em uma árvore, pois o cavalo se recusava a dar um passo a mais.
Ela se aproximou da carroça, sem medo. Até que viu um vulto, rodeando-a. Ela sacou seu punhal e disse que não serviria de isca. A sombra perguntou o que ela fazia ali, e ela lhe respondeu "Venho a procura de uma pessoa. Procuro o filho da velha Cailleach".
"Quem lhe disse esse nome?" O vulto sem diminuir seus movimentos disse, com algo que pareciam ser várias vozes.
"A própria velha me disse. Ela está presa nas masmorras do castelo de Eutin e pediu que eu viesse encontrar seu filho, pois era seu último desejo." A princesa ainda sem baixar a guarda conversava com a sombra.
"Por que devo acreditar em você?" Agora o vulto estava no alto de uma árvore.
"Pois ela me entregou isto!" E a princesa puxou de dentro de uma pequena bolsa, aquilo que parecia ser um colar com um símbolo de uma estrela e em volta uma cobra com cabeça de dragão, feito de prata.
Assim que a Princesa mostrou o colar, o vulto desceu sobre ela e a cobriu por inteiro, onde por apenas um momento ele se apoderou do desejo mais oculto da princesa. A princesa não sabia, mas o colar que a velha entregou, foi como uma permissão para que seu "filho" pudesse se aproximar. Ele se deleitou na obscuridade, em todo ciúme, raiva e tristeza vindas do sentimento.
E enquanto o espírito delirava em toda aquela dor, a princesa pode sentir aquelas mãos frias, os dedos finos, as unhas afiadas, ela pode ver uma pele pálida, com olhos de um vermelho escuro, quase como sangue.
E então ele a perguntou " És este seu maior desejo?"
E logo ela pode enxergar na sua frente, seu cavaleiro novamente, seus momentos de felicidade, e a vida que podia ter. Ela se ajoelhou e com um leve gemido respondeu "sim".
"Se é isto que desejas, é isso que terás, mas lembre-se que toda escolha traz uma consequência. E sua penitência será viver eternamente comigo. Serás minha, me alimentarei de cada fruto do seu ódio, de cada lágrima que caia, de cada vestígio de rancor, até que não sinta nada."
E em poucos minutos, os olhos da princesa se tornaram negros e cegos.
A princesa retornou ao castelo e pediu que fosse feita uma busca para encontrar novamente seu cavaleiro.
Alguns dias se passaram, até que a princesa pudesse retomar seus afazeres normais. Ela já não era mais tão bem vista por todos e estava sempre com olhares tristes.
Seu pai decidiu lhe falar, ele gostaria que ela se casasse com um conde que ainda estaria disposto a se casar com ela.
A princesa não aguentava pensar em casamento, ela não aguentava o conde que a lembrava mais um porco, do que um homem.
E aquele conde, também não aguentava a cara de desgosto que ela fazia enquanto ele falava sobre as terras que ele possuía e tudo que ele teria após o casamento deles.
E foi neste momento em que o conde decidiu que ele não deveria aguentar mais aqueles olhares.
E a princesa sentiu raiva de si mesma e raiva de seu amado cavaleiro, pois ele havia a deixado para este terrível destino.
Foi quando a princesa decidiu sumir daquele castelo, e ela correu por todos os andares, ela passou pelos campos, pelos estábulos, e chegou nas masmorras, aonde ela ouviu um choro.
Ela se aproximava do som, até que encontrou uma pobre velha. A princesa nunca viu alguém naquelas masmorras. A velha era suja e estava acorrentada em um dos cantos daquela prisão.
"Porque choras minha senhora?" A princesa pensou na miséria que esta senhora poderia ter vivido e o que poderia ter feito para estar presa no castelo.
"Ah, minha criança... Sabes que te vi nascer? Sabes que quem te ajudou a nascer fui eu? Tudo que fiz foi ajudar o querido Rei a salvar a vida de sua querida esposa e filha, mas como sou pobre ele não queria que ninguém soubesse disso. O Rei me trancafiou nesta masmorra, me impediu de viver a vida e também de ver meu filho... Meu filho que hoje, deve ter a sua idade..." A velha curandeira fungava, e assoava seu nariz em suas roupas maltrapilhas.
"Não pode ser... Meu pai jamais faria uma coisa dessas." A princesa disse indignada com as afirmações da senhora.
"Não pode ser? Depois do seu nascimento eu fugi, eu não pedi nada em troca, disse que não queria recompensas, e mesmo assim, o Rei me caçou, me privando da vida. Se não acreditas em mim, pode perguntar ao seu pai! Isso se quiser lhe contar também que veio as masmorras ou eu posso lhe contar, pois o Rei se assegura toda noite de que eu estou aqui... Tudo que eu realmente queria era ver meu filho mais uma vez. Se eu pudesse ver meu filho, eu viveria aqui em paz." A velha se sentou com os joelhos entre os braços, como se fosse uma criança abandonada.
A princesa pensou um pouco naquilo que a velha dizia. Mesmo que fosse verdade, ela não poderia dizer ao pai que tinha ido as masmorras, ela seria severamente castigada, pois sempre soube que aquele não era um lugar para uma princesa. Foi o que seu pai lhe disse quando era menor.
"Quem é seu filho? O que ele faz? Eu o trarei aqui, mas deve me prometer que não contará nada ao meu pai." Foram as palavras da Princesa.
Enquanto a velha lhe dizia aonde encontrar seu filho, a princesa prestava muita atenção e guardava em sua memória, tudo aquilo que a velha havia dito. E então a velha lhe entregou um colar e disse que seu filho saberia da verdade quando o visse.
"Na manhã seguinte estarei aqui, junto ao seu filho, cumpra com sua promessa, que cumprirei a minha."
A princesa se virou e saiu das masmorras, sem que ninguém a visse.
A ceia chegou e seu pai não lhe disse nada sobre sua escapada. O que ela acreditou ser um sinal para o cumprimento da promessa da velha, então após a ceia, chamou um dos cavaleiros que cuidava dela desde criança.Pediu que lhe ajudasse a sair sem que seu pai percebesse, pois ela tinha uma promessa a cumprir.
O cavaleiro não quis realizar o pedido, com medo de que o Rei descobrisse, mas a princesa insistiu, dizendo que ela iria da mesma maneira, com ou sem a proteção dele. Sem opção, o bravo cavaleiro resolveu ajudá-la.
***
A manhã seguinte foi complicada. A princesa vestiu roupas de camponesa, quais o cavaleiro de seu pai havia trazido, ela se vestiu e colocou uma capa, para que ninguém visse seu rosto. Saiu pela cozinha, onde quase ninguém notou sua presença. Lá fora seu cavalo estava selado e pronto para a cavalgada. Sair dos campos do castelo foi o mais complicado, mas o cavaleiro havia lhe dito sobre uma passagem secreta que não envolvia a abertura dos grandes portões.
E então a princesa se foi. Para longe de seu castelo, de seu pai, e de tudo, esperando encontrar aquilo que procurava.
Após uma longa cavalgada, a princesa encontrou algo que parecia uma carroça, mas estava velha e caindo aos pedaços. Ela diminuiu o passo do cavalo, que começou a relinchar quanto mais perto ela chegava. Ela desceu de seu lombo e pediu a Arkadius que se acalmasse, pois estava tudo bem, e o amarrou em uma árvore, pois o cavalo se recusava a dar um passo a mais.
Ela se aproximou da carroça, sem medo. Até que viu um vulto, rodeando-a. Ela sacou seu punhal e disse que não serviria de isca. A sombra perguntou o que ela fazia ali, e ela lhe respondeu "Venho a procura de uma pessoa. Procuro o filho da velha Cailleach".
"Quem lhe disse esse nome?" O vulto sem diminuir seus movimentos disse, com algo que pareciam ser várias vozes.
"A própria velha me disse. Ela está presa nas masmorras do castelo de Eutin e pediu que eu viesse encontrar seu filho, pois era seu último desejo." A princesa ainda sem baixar a guarda conversava com a sombra.
"Por que devo acreditar em você?" Agora o vulto estava no alto de uma árvore.
"Pois ela me entregou isto!" E a princesa puxou de dentro de uma pequena bolsa, aquilo que parecia ser um colar com um símbolo de uma estrela e em volta uma cobra com cabeça de dragão, feito de prata.
Assim que a Princesa mostrou o colar, o vulto desceu sobre ela e a cobriu por inteiro, onde por apenas um momento ele se apoderou do desejo mais oculto da princesa. A princesa não sabia, mas o colar que a velha entregou, foi como uma permissão para que seu "filho" pudesse se aproximar. Ele se deleitou na obscuridade, em todo ciúme, raiva e tristeza vindas do sentimento.
E enquanto o espírito delirava em toda aquela dor, a princesa pode sentir aquelas mãos frias, os dedos finos, as unhas afiadas, ela pode ver uma pele pálida, com olhos de um vermelho escuro, quase como sangue.
E então ele a perguntou " És este seu maior desejo?"
E logo ela pode enxergar na sua frente, seu cavaleiro novamente, seus momentos de felicidade, e a vida que podia ter. Ela se ajoelhou e com um leve gemido respondeu "sim".
"Se é isto que desejas, é isso que terás, mas lembre-se que toda escolha traz uma consequência. E sua penitência será viver eternamente comigo. Serás minha, me alimentarei de cada fruto do seu ódio, de cada lágrima que caia, de cada vestígio de rancor, até que não sinta nada."
E em poucos minutos, os olhos da princesa se tornaram negros e cegos.
A princesa retornou ao castelo e pediu que fosse feita uma busca para encontrar novamente seu cavaleiro.

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