Alice...

Lindos cabelos lisos e negros, pele branca como porcelana, um vestido azul e meias listradas. Ela brincava nos campos com as flores, estava envolta de borboletas. Seu riso contagiava qualquer pessoa que aparecesse naquele lugar. Ele a via brincando ali nos prados, vestia um casaco azul e tinha olhos fundos e negros... Se aproximou lentamente e ela perguntou-lhe com tanta alegria que o enojava:

- Quer tomar uma xícara de chá comigo e o coelho branco, senhor?

Apesar de tudo aceitou. Sentou-se na relva verde e um pouco molhada. Ela serviu uma, duas, três xícaras de chá e eles conversaram sobre todas as suas aventuras. Ali, vendo o por-do-sol, ela acabou fechando os olhos, encostando em seu ombro e dormindo. Ele que pacientemente aguardou por esse momento, com um sorriso malicioso, tomou-a em seus braços e levou-a para uma casa grande, com vidros embaçados, um pouco torta, úmida e muito escura. Bateu na porta e o som ecoou.

- Entre. - a voz rouca dizia.

Sob seus pés os pisos de madeira rangeram, ela se mexeu um pouco enquanto ele a carregava, mas não acordou, subiu um andar, e viu um tapete vermelho que se estendia por um grande salão.

- Quem traz em seus braços adormecida? - a voz agora ganhava corpo que se apresentava com um vestido preto e vermelho, uma saia esvoaçante e botas. O rosto, ficava escondido atrás de uma máscara.

- Esta é Alice. - fitando-a enquanto inocentemente dormia - Precisa de conserto.

Ela deu passagem e ele levou-a pra o quarto, deitando-a numa cama suja e mal feita, disse em seu ouvido "Durma bem criança", e assim acabou o dia. Quando acordou com frio na manhã seguinte, ela não sabia explicar o que havia acontecido. Onde estava sua cama grande e quentinha? Seu quarto iluminado e seus bichinhos de pelúcia? Como tinha ido parar naquele lugar frio e úmido? Por que ventava tanto? Por que a porta estava fechada e os vidros todos embaçados sem nenhuma visão do lado de fora? Chamou por alguém. Ninguém veio. Se sentiu triste, ficou pensando o que poderia fazer lá fora, e também em seu coelho branco, mas logo transformou essa tristeza em esperança, disse a si mesma "amanhã verei o sr. Coelho, hoje brincarei aqui dentro, descobrirei como". Com os lençois de cama, ela construiu um forte, limpou um pouco da janela e deixou a luz entrar, imaginou o céu em seu forte. E ali começou a criar um milhão de histórias para poder contar, o toque da campainha interrompia sua brincadeira. Alguém veio. Pegou-a pelo braço e arrastou por um grande corredor, ela percebeu que toda as portas estavam fechadas. A voz por traz da máscara disse

- Entre no banho, já! - E jogou-a para uma sala de azulejos brancos e frios com chuveiros. Ela olhou a sala sem entender muito e ficou sentada no chão. - O que está fazendo aí parada? Vamos entre debaixo do banho! - E a mulher abaixou e tirou seu vestido azul e suas meias listradas, jogou-a debaixo de um chuveiro e ligou.
A água estava fria e caia em seu corpo. Ela não assimilava, ficava triste e chorava. Voltou para o seu quarto, não mais no seu vestido azul ou com suas listras. estava só de branco agora, o cabelo molhado, as bochechas roxas por causa do frio. Logo mais sozinha, seguiu para o refeitório, na mesa tinha um prato de comida e apesar de não ser boa, ela ficou feliz em receber, construiu um castelo com o purê de batatas, fez um rio com o molho e campos com a carne moída, podia se imaginar brincando naquele lugar que havia criado.

- ALICE! - Uma voz gritava o seu nome e logo em seguida sapatos brancos apareceram - O que pensa que está fazendo com a comida? - Pegaram o prato atiraram contra o chão - Acha que comida é brincadeira querida? Que tal ficar sem seu jantar essa noite? - A voz pegou-a pelos cabelos e Alice choramingava - PARE JÁ COM ISSO! CALADA! - E a pôs em um quarto branco sem janelas ou qualquer outra coisa. Deixou-a lá por algum tempo, não sabe ao certo quanto tempo foi, mas ficou lá olhando as paredes, uma hora ou outra um amigo seu aparecia, um gato aqui.. outra hora uma cigarra ou um chapeleiro que não a deixava desanimar...

"Manhã ou noite? Dia ou dias? Onde é que eu estou e para onde vão me levar? Por que não podem aceitar e o que foi que eu fiz de errado? Estão bravos por que não conseguem ver? Me perdoem..." - Tudo corria na cabeça de Alice naquele tempo sozinha... Sozinha? Ela estava sozinha? Ela não sabia. Quando acordava não via ninguém, só os via quando ia dormir e o chapeleiro ria enquanto dizia que Alice perdera sua moitez, ela chorava e se negava a acreditar:
"Por que está sendo tão mal comigo?"
E quando ele respondia, Alice ouvia a voz de seu pai: " Você não é mais uma criança Alice, não pode mais voltar aqui, cresça... Cresça."
E ela procurava o gato, chamava-o desesperadamente, ele não sorria mais.
Se embaralhava com as palavras e dizia: "A culpa não é minha, eles me puseram aqui" e ele questionava: "Aqui aonde?"
Desolada ela respondia " Nesta sala vazia" e o gato se esvaindo replicava " Eu achei que estivesse no País das Maravilhas..."
Ela não o via mais, por mais que tentasse, ele não aparecia e ela dormia. Alguém abriu a porta e ouviu dizerem "Creio eu que já consegue entender. Você tem que seguir as regras. Tem que fazer o que te mandam, nada mais, nada menos." e então ela abaixou a cabeça e concordou. Agora, podia sair do quarto, mas qual era a razão de sair do quarto? Esqueceu este pensamento. Tomou banho. Comeu. Tomou pílulas e se calou.
"Finalmente algum progresso no nosso mais novo experimento" - dizia a mulher de máscara que lhe acolheu "Testem-na."
Naquele mesmo dia, disseram a Alice que pelo seu bom comportamento ela poderia ir ao jardim. Quando ela colocou os pés na grama e o sol bateu em sua pele, ela sabia. Ela pulou e girou naquele jardim, brincou com as árvores e as flores e finalmente viu um chapéu, uma cabeça enorme e metade de um gato, tomando chá. Não podia se sentir mais feliz e se aproximou:
- Posso tomar chá com vocês?

As cabeças viravam na direção da voz, e a rainha indagou:
- Quem pensa que é para interromper um chá importantíssimo como esse?

Com um sorriso, lhe respondeu:
- Sou eu. A Alice.

Um camundongo saia de um outro bule de chá, e sonolento resmungava:
- Alice? Mas que Alice?

Mais uma vez, sorriu:
- A Alice. A única Alice no País das Maravilhas, já vim aqui tantas vezes, todos vocês me conhecem.

E o chapeleiro mudando de cadeiras, lhe respondeu:
- Desculpe, nunca ouvi falar de Alice alguma aqui no nosso País e você Sr. Coelho?

E então, checando seu relógio e vendo que provavelmente estava atrasado, com pressa disse:
- Não, claro que não. Não existe Alice alguma aqui.

O gato então entrou na conversa:
- Eu conheci uma Alice, ela se parecia muito com você, era assim do mesmo jeito, mas não é você.

Ela se enfureceu:
- É claro que sou eu! Como poderia não ser?

O gato passando a cauda em seu nariz respondeu:
- Por que aquela Alice morreu..

Outra voz a chamava. Era hora de entrar. Anunciaram que em breve seu pai vinha lhe buscar, que ela tinha que mostrar tudo que aprendeu e que por isso havia uma surpresa em seu quarto. Ela não disse uma palavra, não expressou felicidade, mas concordou com tudo que diziam e a noite seguiu tranquilamente.

***
Abriu a janela, deixou a luz entrar, viu algumas nuvens no céu, mas isso não mudava a importância do dia. Aquela era uma linda manhã, mais que linda alias, era uma ótima manhã. Vestiu-se como de custume, desceu as escadas, tomou seu típico café da manhã com suas duas torradas com geléia e seu café preto, quase tão escuro quanto seus próprios olhos... Olhos que fitavam a foto favorita de sua filha. Era o dia que ia buscá-la. Se lembrou do dia que a levou para aquela casa e como ela falava com vozes imaginárias e lutava com o vento. Ela já tinha alguma idade e aquele comportamento não era normal.
Não teve outra alternativa, se aproximou e participou da brincadeira, esperou com que adormecesse então levou-a em seus braços. Teve medo de deixá-la, mas com a promessa de cura para o problema de sua filha, ele não pensou duas vezes. Aceitou todos os termos da dona do local, inclusive de não ir visitar a filha até o final do tratamento -"Os resultados são surpreendentes, não irá reconhecê-la quando a vir novamente" - a frase martelava em sua cabeça. Pegou as roupas favoritas de sua filha e levou seu coelho branco. Finalmente o chamaram para entrar.
Explicaram que o último procedimento tinha sido o mais radical, mas que ela estava completamente curada. Ouvindo aquelas palavras ficou mais ansioso para encontrar sua filha em perfeito estado. Abriu a porta vagarosamente, viu paredes escuras, janelas fechadas e uma menina com cabelos desgrenhados no canto do quarto, ele segurou-a firme tentando parar suas investidas descontroladas, olhou-a nos olhos e tentou perguntar-lhe o que havia acontecido, mas antes de dizer qualquer palavra, ele ouviu-a dizer:
- A Alice está morta... Alice está morta...
E ela apontara para o outro canto do quarto.Aquela imagem o atormentara, e ele estava tentando entender o que sua filha dizia, pois não fazia sentido. Até, que então notou o que Alice apontava. Ao invés de sua cama, com os lençois sujos, havia um caixão de madeira de orvalho para ela se deitar. O horror o fez curioso, e se aproximou do leito, onde percebeu que em sua tampa, havia um espelho.
- Ela não dormia mais, então substituimos a sua cama, por algo que pudesse entretê-la. - A mesma mulher que lhe apresentara o lugar dizia.
E num misto de raiva e indignação, ele disse com desdém:
- Então, ela não dormia neste lugar fúnebre? Me diga o que fizeram exatamente com minha filha?
Ela respondeu com um pouco de ironia:
- Aquilo que o senhor pediu. Nós a curamos daquela incrivel imaginação que tinha. Ela deu algum trabalho, pois realmente era um gênio e não conseguimos adaptá-la a nossa mediocridade, então ela enlouqueceu, mas aquilo que atormentava o senhor, não existe mais.
Olhou para todos os lados, a culpa o consumia, estava como quem pensa em se esconder em algum lugar, mas mesmo no canto mais escuro do quarto, não podia fugir dos olhares, pôs as mãos em seu rosto, buscando esquecer a imagem da filha, não conseguia... Abraçou-a e a fez dormir. Levantou-se e colocou o vestido azul e as meias listradas em sua filha, colocou o coelho branco em seus braços, parecia tranquila... E esta foi a última vez que viu Alice.

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